segunda-feira, maio 12, 2008

Firenze

O dia mais feliz da nossa vida está sempre por vir. O casamento, o nascimento do primeiro filho, a chegada ao primeiro milhão de euros, a presidência da empresa ou o reconhecimento de uma carreira que já se afigurava brilhante.
O grande amor ainda está por viver. A pessoa certa vai esbarrar connosco, num dia de chuva, em que teremos a imediata e inequívoca convicção de a ter encontrado. A teoria é sustentada durante anos, enquanto se vão iniciando (e descartando) relações, sempre com a certeza de que a pessoa certa ainda não foi encontrada.
A nossa cidade é sempre aquela que estamos por conhecer. A viagem de sonho é sempre aquela que ainda não fizemos e que vamos adiando por imperativos vários (nomes politicamente correctos para inércia ou preguiça).
A descrença na existência da tal pessoa certa ou na felicidade suprema alcançada num dia já pré-determinado veio com a idade. Os cabelos brancos trouxeram algumas dúvidas. Os dias pré-determinados são realmente assim tão importantes, tão únicos? A pessoa certa existirá realmente?
A minha cidade, essa sim… existe. Conheci-a num fim de viagem que já contava com tantas memórias quantas a perspectiva mais optimista podia ter configurado.
Na mala levava poucas horas de sono, muitas de comboio e outras tantas de jantares com enérgicas famílias italianas… Personagens que rompiam de um romance que alguém se esqueceu de escrever. Um cozinheiro-advogado-padeiro italiano que escolheu um parque de campismo para jurar amor eterno à sua bella donna, com toda a família como testemunha.
Uma padeira-bibliotecária e um pintor-padeiro-gótico que quiseram perpetuar a tradição da família, sem descurar os seus sonhos. Fazer foccacias é uma arte tão difícil como a de desenhar personagens saídas do Senhor dos Anéis. Ainda assim, o Karma dos intelectuais e artistas é o mesmo nos quatro cantos do mundo: reservam pouco tempo para as actividades mundanas dos comuns mortais, como a de conduzir devagar, sem sair da mesma faixa da estrada.
Um filósofo-voluntário-dono de um bar de uma aldeia perdida nos confins de Itália, onde Angie é tocada ao vivo para quatro transeuntes que poderão nunca mais voltar a passar por ali. O mesmo dono que, todos os anos, vive três a quatro meses em África. Conduz um jipe e tenta fazer o que pode por aqueles que vai encontrando.
Um professor-idealista que, próximo dos sessenta, já viveu, leu e analisou muito daquilo que melhor e pior se vai fazendo por este mundo. De Portugal tinha boas referências: Fernando Pessoa, Saramago, Sérgio Godinho… Fazem parte da biblioteca de alguém que nunca aceitou a imposição de regras.
Com quem partilhei as experiências?
Com uma politóloga-também-idealista-cantora que se sente em casa no bairrismo de Génova, enquanto recusa os circuitos turísticos e me lembra que os bons amigos, uma vez feitos, ficam para sempre.
Com um engenheiro-bom-vivant que sustenta a teoria de que uma boa viagem tem que ser movida a muitos copos, intermináveis horas de conversa e mais visitas a outros amigos, dos tais que, uma vez feitos…
Com outro engenheiro-hiperactivo. O cansaço, os prazeres gastronómicos de Itália e o ano que completa entre três países diferentes desafiam-lhe o pragmatismo que até aí lhe fornecia resposta para tudo. A mim, deixa-me a certeza que a resposta «só amigo» não faz sentido absolutamente nenhum.
Mas ainda haveriam mais surpresas. Às portas do Paraíso, foi fácil perceber que o lugar era meu. As ruas onde passámos eram minhas. As casas eram habitadas por pessoas reais. Uma delas, por uma arquitecta de Roma, que prefere inspirar-se na beleza e qualidade de vida fiorentina. Ir de bicicleta para o trabalho é um luxo que já não dispensa. Como as visitas de um supersticioso namorado napolitano que não gosta de ver garrafas de vinho, azeite ou água partidas no chão. Pelo sim, pelo não, é preferível molhar o dedo e passá-lo pelo pescoço dos que estão por perto.
Que outra cidade no mundo, com uma tão ínfima expressão geográfica, terá tanto para dar? Nunca lidei bem com a chantagem, mas a condição que impõe parece-me justa. Só lhe prometi que voltava assim que pudesse, lamentando não ficar até ser vencida pelo cansaço ou pelas lusitanas saudades. E, se isso nunca chegasse a acontecer? Se a Piazza del Duomo, o Baptistério, o Campanário, o Palazzo Pitti, a Ponte Vecchio, a luz, as casas, o rio… nunca me cansassem? Era uma hipótese. Aceitava, de bom grado, correr o risco. Encontrei-te Firenze…
E é verdade: quando se diz «Amo-te» a alguém, esse amor dura para sempre.

7 Comments:

Blogger Ala de colibri said...

¡Qué bonita la idea de comparar el amor con los lugares!
Al igual que tú, en este viaje me enamoré.
Me enamoré de Génova, de su decadencia marítima.
Me gusta lo que dices, el amor grande está por venir, vendrá, entre tanto nos quedan muchas ciudades que conocer
¿Seguimos viajando?
Luisa

7:17 da tarde  
Blogger anDrEIA said...

Ninaaa... lindo post :) AMEIII e tou a ver que tb amaste a bella Itália :) * baci*

11:07 da tarde  
Blogger fsanches said...

Uma romântica-jornalista-optimista que se sente em Firenze como se esta tivesse sido erigida como resposta aos seus sonhos de cidade idílica, uma cidade para viver uma vida… ou duas. As tentações da Prada, o comércio de rua, as sedas, o museu ao ar livre, a ponte vecchio, as pinturas de Sandro, toda a cidade pulsa de vida, cor e movimento. É uma cidade viva, antiga e ao mesmo tempo nova. Eu dei a resposta, mas qual era a pergunta?

11:18 da tarde  
Blogger Daniela said...

Fico contente por saber que andaste por la "bella Italia" e que os teus sentidos ficaram à flor da pele com esta viagem. Para quando uma escapadela até Bruxelas para pormos os nossos corações alinhados?

10:13 da manhã  
Anonymous Miguel Flores ( O bom-vivant) said...

Para mim esta viagem foi mais uma viagem no tempo do que geográfica; o reencontro com uma Génova sem a confusão do G8, com Lucca das amizades, com Firenze dos turistas e finalmente com a minha Pisa hahah(esta saiu sem querer)!
Mas além dos sítios, ficou o reencontro com amizades e sentimentos que andavam por ai latentes..à espera apenas desta viagem.
Beijo grande para a jornalista-fiorentina-cromita!
O post tá muito bom!

11:41 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Fantástico...

Adorei o texto..

Também eu, sou apaixonado por Italia..em, especial da Monica Belluci..:)

Parabéns!!

JPL

5:21 da tarde  
Anonymous JPL said...

tens lugar nos meus favoritos!

encontrei o blog aquando da procura de um livro de MSTavares sobre o deserto do Sahara,também ele um apaixonado do deserto, dos prazeres e da vida!...

Uma vez mais parabéns.

JPL

http://lichiaslagostas.wordpress.com/

5:32 da tarde  

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