quarta-feira, outubro 01, 2008

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade

2 Comments:

Blogger Inês said...

Que maravilha de poema!

10:32 da manhã  
Blogger White said...

O facto é que gastamos as palavras para que as coisas possasm ser esclarecidas e, na esperança de mudar de rumo, não nos calamos. Quanto mais dizemos mas nos esvaziamos e parece que as palavras ditas se perdem no turbilhão das sensações, tudas boas, todas más,,,, não sabemos,,, porque a lucidez também se foi. Só fica a vontade de remediar e mudar, só fica a esperança de não perder aquilo que sentimos como nosso, mas que já não nos pertence.
E assim gastamos tudo o resto, o relogio, o papel, os lenços. Tentamos salvar o possível antes do grande vazio que se avizinha,,,, já sabemos mas ainda não acreditamos.
Deveriamos aprender a não gastar aquilo que não é preciso para podermos guardar um pouco daquele passado que nos fez felizes e que agora parece cada vez mais longe.

De que será afinal que estamos sempre a procura?

1:40 da manhã  

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